18/05/2018 _Espionagem, fake News, etc: quem ganha na guerra de mercado?
Espionagem, fake News, etc: quem ganha na guerra de mercado?


É comum vermos verdadeiras batalhas nos mercados, o que inclui concorrentes se digladiando na mídia, digladiando-se em promoções, digladiando-se por espaço nos pontos de vendas. E no geral, qual é o resultado destas guerras? Nenhuma vantagem.  Na maioria das vezes, resultam apenas em prejuízos.

Quem conhece bem São Paulo sabe que existem ruas inteiras com lojas do mesmo segmento. Lembro-me da Rua Florêncio de Abreu, com seus comércios de máquinas, equipamentos e ferramentas. Na Rua São Caetano temos dezenas de lojas de vestidos de noiva, roupas especiais para eventos sociais e ainda algumas lojas que vendem máquinas de costura. Já quem quiser comprar acessórios e peças para bijuteria sabe que vai encontrar de tudo na Ladeira Porto Geral. 

Este é um ótimo exemplo de paz que beneficia os concorrentes e, principalmente, os consumidores. Estes comerciantes não fazem guerra entre si. Como seus concorrentes estão lado a lado, capricham na exposição dos produtos e no treinamento de seus vendedores, oferecem conforto aos clientes, qualidade e preços competitivos. 

Muitos deles costumam fazer propaganda, inclusive na TV, mas, se você observar, apenas valorizam seus produtos e serviços sem desmerecer a concorrência. Muitas vezes fazem propaganda cooperada da rua e seus principais produtos, normalmente, não falam de uma loja específica nestas campanhas.

UMA HISTÓRIA SEM FINAL FELIZ

Guerra mesmo acontece entre as grandes indústrias (e raramente aparecem para o público). Espionagem industrial e comercial e “fake news” são ferramentas muito utilizadas neste tipo de embate. São, em sua maioria, atitudes ilegais, sujas. Tive a oportunidade de participar indiretamente do lançamento da linha de sorvetes da Nestlé como prestador de serviços para a Kibon. 


Fiquei sabendo da data do lançamento e o mercado teste que seria utilizado em Curitiba com uma antecedência de pelo menos seis meses. Tenho certeza de que ninguém da Nestlé foi até a concorrente Kibon dar esta informação. Ou seja, diria que este caso foi de uma espionagem leve e provavelmente realizada junto ao fornecedores de matéria-prima, de máquinas, ou de embalagens.


Um caso famoso que até inspirou o filme Tucker: um homem e seus sonhos,  do diretor Francis Ford Coppola, é a história do empreendedor Preston Tucker, que em 1945 projetou um automóvel revolucionário para a época. Era um carro longo, com linhas aerodinâmicas, baixo, com muitos itens de segurança e bastante veloz. Podia atingir até 190 Km por hora!


Provavelmente foi o primeiro carro a disponibilizar cintos de segurança. Era um veículo tão inovador que já usava freios a disco e suspensão independente nas quadro rodas e extremamente seguro (para a época) tendo compartimento de passageiros construído em aço deformável, maçanetas embutidas nas portas, para-brisa que em caso de colisão era jogado para fora do carro, espelho retrovisor em plástico flexível e toda a parte interna era acolchoada, inclusive o painel. Como curiosidade tinha um farol bem no centro da grade dianteira, que acompanhava o movimento da direção iluminando as curvas. E o mais importante era vendido por pouco mais de U$ 2.500,00 (algo como R$8.800,00 hoje). 


Assim que anunciou o inicio da produção, Preston Tucker recebeu encomendas de trezentas mil unidades. As grandes montadoras da época se preocuparam muito e começaram campanhas difamatórias do lançamento. Faziam pressão sobre o governo americano, mas, só conseguiram barrar o Tucker Torpedo quando proibiram as siderúrgicas de fornecerem chapas de aço. 


Em resumo: foram produzidas pouco mais de 50 unidades (47 ainda existem em mãos de colecionadores). E assim foi encerrado o sonho de um visionário que iria revolucionar a indústria automotiva de todo o mundo. E, eu pergunto: não teria sido melhor se associar a ele? Talvez hoje os automóveis fossem muito mais seguros do que já são. O interesse mesquinho e medo da própria incompetência são os principais motivos que justificam o injustificável: as guerras entre empresas. 

Por JM Macedo
Diretor de Pesquisa da Voük Comunicação


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