24/06/2019 _Ser ou estar criativo?
Ser ou estar criativo?

Criatividade é um dom inato. Todos nós somos criativos, o que pode variar é o grau de criatividade, devido à habilidade e, principalmente, ao autotreinamento intensivo. Como diz a jornalista Bru Fioretti (Folha de São Paulo), com relação à criatividade, não se trata de ser ou não ser, mas de estar ou não estar criativo(a). 


Criatividade nada mais é do que encontrar soluções para problemas ou dificuldades, soluções estas que podem ser criativas, inovadoras ou mesmo óbvias. Os pedreiros, até mesmo os analfabetos, são capazes de definir com exatidão o esquadro perfeito de uma grande construção, sem usar esquadros ou instrumentos de precisão. 


Claro que algumas pessoas têm mais facilidade que outras, mas será sempre porque tem mais habilidade, pensou muito no assunto e treinou o suficiente. Se você for um diretor de criação de uma agência de propaganda, terá muito mais habilidade para criar um anúncio do que um marceneiro, porém este último terá muito mais habilidade para criar um móvel do que você. Entretanto, se ambos quiserem, poderão ter níveis de criatividade semelhantes nas duas funções, para isto deverão estudar e adquirir conhecimento teórico sobre cada um dos assuntos e praticar muito. 


PRATICANDO A CRIATIVIDADE


Ser óbvio é enxergar aquilo que está evidente, mas que a maioria das pessoas não vê, principalmente porque não precisa daquela solução. Uma vez comprei um pequeno sítio que não tinha nenhuma construção. Contratei um rapaz para limpar uma parte do terreno para plantar milho. A fonte de água ficava a uns 100 metros do local escolhido para minha plantação. Pedi ao rapaz que cavasse uma valetinha para levar a água mais perto. Enquanto isso, fui para a cidade comprar lanche e quando voltei me dei conta de que não tínhamos mesa para preparar o lanche. Prontamente, o rapaz pegou o tronco de uma Embaúba, dividiu ao meio e transformou em uma canaleta. Quando comentei que não tínhamos uma mesa, ele me pediu dez minutos para fazer um girau. Pegou o facão e entrou no mato, de onde voltou com um feixe de galhos de arbustos. Em menos de dez minutos tínhamos uma pequena mesa, construída com os galhos sem o uso de pregos, arame, corda nem cola. Ele foi muito criativo solucionando as nossas dificuldades de trazer a água e de ter construído a nossa mesa para um pouco mais de conforto e higiene.


CRIATIVIDADE NA PUBLICIDADE


Muitas vezes vemos um anúncio engraçado na TV e pensamos “que genial”. Nada disso: ele é tão genial quanto você, só que deve estudado o briefing do cliente por muitas horas. Também deve ter estudado muito o público para qual a mensagem deveria ser dirigida e a forma dela ser recebida. É bem possível que seja uma pessoa naturalmente engraçada, mas com certeza ele desenvolveu este lado meio humorista treinando e estudando bastante.


Há muitos anos eu trabalhava em uma agência de São Paulo que tinha a conta da Divisão de Polímeros da Ciba Geigy, que na época fabricava a cola Araldite. Como já fazia muitos anos que não anunciavam na TV e desejavam incrementar as vendas, pediram que a agência desenvolvesse uma campanha que comprovasse a eficiência do produto. Passei o briefing para a dupla de criação. Dois dias depois o redator apresentou o tema: “Só Araldite é capaz de unir estes dois para sempre”. Uma semana depois o diretor de arte apresentou duas sugestões, a primeira seria colar o escudo do Palmeiras no escudo do Corinthians. Esta ideia foi descartada internamente para não envolver paixões. Então ele apresentou a ideia em que ele mesmo preferia: colar uma latinha da Coca Cola em uma latinha de Pepsi Cola, uma ideia brilhante que combinada com o tema, atendia perfeitamente o objetivo do cliente.


Adoramos a ideia e o cliente aprovou de primeira. Solicitamos autorização da Pepsi (que permitiu) e da Coca que solicitou ver o filme antes de dar seu parecer. O filme foi produzido e a Coca não deu sua autorização. O filme recebeu diversos prêmios, mas nunca foi ao ar.


Resumindo, depois de aproximadamente quatro meses e muitos milhares de reais investidos, o cliente acabou postergando a campanha, porque todas as ideias que a agência apresentou depois não eram tão geniais quanto a primeira. Temos falado em estudar, se informar, em pensar, em ser óbvio quando necessário, mas tão importante quanto estas quatro diretrizes são considerar a viabilidade de execução e se a “ideia” vai realmente solucionar o problema.


DICAS PARA SE TORNAR “MAIS” CRIATIVO


01 – Entender perfeitamente o briefing do cliente, ou o problema a ser solucionado.

02 – Estudar exaustivamente todas as possibilidades e dificuldades do problema.

03 – Escrever todas as ideias que tiver, todas mesmo, inclusive as que pareçam “estapafúrdias”. Escreva... escreva... escreva...

04 – Conversar, se possível, com outras pessoas sobre o problema e nunca esquecer dos devidos créditos.

05 – Escolher no máximo três ideias da lista.

06 – Descartar as ideias que envolvam permissão de terceiros sobre os quais você não tem acesso ou controle.

07 – Analisar criteriosamente as viabilidades técnicas e financeiras.

08 – Certificar-se de que a ideia realmente poderá resolver o problema. Em caso de dúvida descarte. 

09 – Treinar bastante com problemas corriqueiros, aqueles do dia a dia, durante estes treinos. Tentar evitar o óbvio como forma de aprimorar o exercício.

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