24/06/2020 _Covid-19 e a sabedoria dos povos indígenas
Covid-19 e a sabedoria dos povos indígenas

Lamentavelmente, as sociedades que se dizem cultas e bem informadas, são as que dão os piores exemplos e demonstrações de irresponsabilidade social. Não é incomum vermos notícias de festas, reuniões sociais com o objetivo de recreação, homenagens de familiares e amigos a aniversariantes. Assim como, idosos reunidos em praça pública para bater papo e jogar ou jovens andando sem máscara, por pura birra.

Quero deixar de lado a parte mais pobre da população, porque estes, em sua grande maioria, vivem sem as mínimas condições de salubridade, porque não têm recurso para viver de outra forma. Em muitas favelas e pequenas habitações da periferia, não é difícil encontrarmos famílias de dez ou mais pessoas que vivem em um único ambiente.

Enfim, todos nós somos responsáveis pela disseminação da Covid-19 e de muitos outros males que assombram a humanidade. Mas, como os yanomamis veem tudo isto?

Li, em uma coluna do UOL, o depoimento de Dario Vitório Kopenawa, um yanomami de 38 anos, filho do xamã Davi Kopenawa. Nele, Dario nos explica como tudo o que está acontecendo é entendido pela cultura yanomami.

Omama, o criador da humanidade, enterrou todos os males no fundo da terra. Mas a ganância do homem branco o levou a escavar o planeta em busca de riquezas, justamente onde Omama havia enterrado os males, e espalhou as doenças entre os povos indígenas. O Xamã Davi percebeu que tinha que fazer alguma coisa para preservar o subsolo de onde viveram seus antepassados e começou a orientar o filho Dario, para que esta luta pudesse continuar.

As doenças enterradas são chamadas de xawara. Atualmente, Dario continua a luta do pai, contra garimpeiros, madeireiros e outros invasores das terras Yanomamis, para evitar que eles desenterrem a xawara. E são justamente estas pessoas as principais responsáveis por espalhar doenças entre os povos indígenas.

Dario lidera o movimento “Fora Garimpo, Fora Covid”, buscando assinaturas para pressionar os governantes brancos. Infelizmente, apesar de todo o  empenho de Dario, quatro yanomamis foram contaminados pelo novo coronavírus, entre eles uma grávida e um adolescente de 15 anos.

O SESAI (Serviço Especial de Saúde Indígena) estima a existência de 26 mil indígenas nas terras Yanomami, em Roraima, divididos em oito povos diferentes, sendo alguns ainda isolados. Por outro lado, também é estimado o número de 20 mil garimpeiros naquela área, quase um garimpeiro para cada yanomami, o que torna esta nação indígena uma das mais vulneráveis do país.

É evidente que os garimpeiros não desenterram doenças, mas pela sua movimentação entre Rio Branco e a reserva Yanomami, eles estão transportando o vírus até os indígenas e com isto contribuem para confirmar a crença dos males enterrados por Omama e desenterrados pelos brancos.

Enfim, tudo isto nos ensina algumas lições, nós brancos não somos tão evoluídos como acreditamos, tudo em função de ganância. Se respeitássemos a natureza, explorando o subsolo de forma racional e sustentável, não teríamos catástrofes como as de Mariana e Brumadinho. Se tomássemos mais cuidado com a natureza, nosso clima seria mais amigável, não teríamos tanto lixo nos oceanos e nosso planeta e biodiversidade estariam protegidos.

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